Dando continuidade à nossa série especial sobre a Doença de Alzheimer, aqui você poderá compreender quando um esquecimento deve preocupar.

Demência não é uma doença benigna. Além do grande fardo familiar e social, ter demência aumenta a chance de hospitalização e aumenta a mortalidade. O tempo médio que uma pessoa vive após o diagnóstico de demência é de 8-10 anos, embora isso varie muito de acordo com a idade do diagnóstico.

A relação entre esquecimento, envelhecimento e Doença de Alzheimer é bem complexa.

Primeiro, esquecer certas coisas é parte normal do processo de aprendizagem. Nossa memória não tem capacidade infinita, então, para seu ótimo funcionamento, esquecemos automaticamente coisas que não são importantes ou às quais não damos atenção. Ou seja, nossa memória é direcionada.

Segundo, com o envelhecimento, nossa capacidade de memória diminui um pouco. Isso ocorre em consequência de várias alterações cerebrais que acumulamos ao longo dos anos e que terminam por reduzir a capacidade de adaptação dos neurônios (plasticidade). Essas alterações trazem ao idoso maior dificuldade de focar e dividir a atenção.  Realizar tarefas simultâneas pode ser particularmente difícil. É também comum dificuldade para lembrar nomes de pessoas e objetos, mas que geralmente melhora com ajuda.

O processo de aprendizagem tende a ser mais lento, porém, no envelhecimento normal, é possível aprender, inclusive habilidades completamente novas. Em princípio, todo esquecimento que interfere na capacidade de realizar tarefas com as quais a pessoa era habituada deve ser considerado anormal e deve levar à investigação médica.

O tipo de esquecimento mais sugestivo de Doença de Alzheimer é aquele em que a pessoa não consegue se lembrar de informações recentes mesmo quando alguém lhe dá uma pista. Isso ocorre porque há um defeito na codificação (armazenamento) da informação nova. Esse tipo de esquecimento costuma ser bem precoce na progressão da doença e, inicialmente, pode ser o único déficit.

Aos poucos – geralmente em intervalos de meses a anos – a capacidade de realizar tarefas simples, as habilidades manuais, a linguagem, a função visuoespacial  e o comportamento também são comprometidos.

A doença de Alzheimer causa uma perda cerebral que não é justificada pela idade.

A perda de memória episódica típica da Doença de Alzheimer ocorre em associação com a degeneração de estruturas localizadas nas partes médias dos lobos temporais, notadamente os hipocampos. Na ressonância magnética, isso é visto como atrofia (perda de volume) maior que a esperada para a idade.

 

Representação do cérebro de uma pessoa com Doença de Alzheimer (direita) comparado ao cérebro normal (esquerda). Na Doença de Alzheimer, há perda de volume cerebral, principalmente na região do hipocampo, estrutura crucial para formação das memórias. Reproduzido de Nature.

No nível molecular, essas alterações correspondem a depósitos de substâncias tóxicas, quais sejam o peptídeo beta-amiloide – principal componente das placas neuríticas extracelulares – e a proteína Tau, que compõe os emaranhados neurofibrilares intracelulares. Esses dois tipos de depósitos são a assinatura patológica da Doença de Alzheimer.  

Placas de amiloide (seta curta) e emaranhados neurofibrilares (compostos de proteína Tau (seta longa), encontrados no cérebro de uma paciente com Doença de Alzheimer. Nixon, 2007

Diagnóstico

Atualmente o diagnóstico da doença de Alzheimer pode ser estabelecido diante da história clínica e exames de imagem típicos. Pode-se também dosar as proteínas Tau e Amiloide no líquido cefalorraquidiano, coletado através de uma punção lombar, o que aumenta a certeza diagnóstica.

O tratamento atual da Doença de Alzheimer constitui-se de medicamentos apenas sintomáticos. Isso significa que as drogas utilizadas não curam a doença nem retardam a progressão, mas podem melhorar os sintomas. Esses medicamentos têm eficácia considerada boa, mas, infelizmente, perdem a efetividade na fase tardia da doença.

 

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