De um “esquecimento normal” à Doença do Século

Mari Nilva Maia
Neurologista

Se você viveu a infância até o final do século passado, você provavelmente viu um avô ou uma avó ficarem esquecidos sem que ninguém se preocupasse em levá-los ao médico. E não era negligência dos seus pais – ficar esquecido na velhice era visto como normal e, até 1993, não havia sequer tratamento sintomático.

Isso mudou, felizmente! Se você viver tanto quanto sua avó, suas chances de ter Alzheimer vão aumentar, e, infelizmente, ainda não há cura para essa doença. O que mudou é que ficar demente já não é visto como inevitável. Vamos entender como se deu essa mudança e por que devemos ter esperança de (e fazer esforço para) não desenvolver demência.

Na verdade, a Doença de Alzheimer não afeta somente idosos. A primeira paciente, Auguste D,  descrita por Aloïs Alzheimer em 1906, tinha apenas 50 anos quando examinada. Somente depois se descobriu que, no cérebro, essa forma pré-senil (quando a doença afeta pessoas com menos de 65 anos de idade) e a alteração de memória e comportamento comum no envelhecimento são, de fato, a mesma doença.

A doença se manifestando

A Doença de Alzheimer pré-senil, porém, é rara e frequentemente tem causa genética, como se comprovou ser o caso da paciente do Dr. Alzheimer. Isso é bem diferente da doença de Alzheimer do idoso, que ocorre quase sempre sem um padrão de herança familiar – no total, em apenas 1% dos casos de Doença de Alzheimer, encontra-se uma mutação genética.

Auguste Deter (Auguste D), o caso número 1 de Doença de Alzheimer, em 1902.

A Doença de Alzheimer também pode se manifestar de forma atípica, isto é, sem que a memória seja o primeiro sintoma. As chamadas variantes atípicas da doença de Alzheimer são a atrofia cortical posterior (que se apresenta com alteração do funcionamento visual), a afasia progressiva logopênica (um tipo de alteração da linguagem marcada pela dificuldade de lembrar palavras) e a variante frontal (alteração primária do comportamento e pensamento). Estas costumam ocorrer em pessoas mais jovens e são raras. A forma típica, porém,  afeta predominantemente pessoas com mais de 60 anos, é muito comum e sua prevalência vem aumentando.

Progressão da doença

Em 2015, havia cerca de 36 milhões de pessoas no mundo vivendo com Doença de Alzheimer. Devido ao envelhecimento da população, esse número deve chegar a 80 milhões no ano 2050. A associação com o envelhecimento é tal que, na Europa, aos 80 anos cerca de 10% das pessoas têm doença de Alzheimer e a prevalência sobe para mais de 30% aos 90 anos. No Brasil, a prevalência de demência em pessoas acima de 60 anos foi estimada entre 5 a 17%.

 

Para marcar o mês em que é lembrado o Dia Mundial de conscientização sobre a doença de Alzheimer, a Clínica Ineuron apresenta uma série especial com textos no blog Sua Sáude. A neurologista Mari Nilva da Silva explica a origem da doença, avanços dos estudos em busca de uma cura, prevenção entre outros.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *